Textos

Da Perspectiva de Reconciliação entre Arcaísmo e Tecnociência a partir do Arqueofuturismo de Guillaume Faye

02.04.2015

“O sol retornará, e ele será de pedra” – Maurice Rollet

Na primeira metade do século XX, quando da publicação de sua obra-prima Der Untergang des Abendlandes (A Decadência do Ocidente), o filósofo e historiador alemão Oswald Spengler nos brinda com o método revolucionariamente fulgurante da fisiognomonia, que viria a possibilitar, mediante criteriosa análise de diversas tradições culturais, a apreensão intuitiva da morfologia geral da História Universal, calcada em um resgate da imbricação entre história e natureza. Para Spengler, o declínio do ocidente é atestado pelo avançado grau de descolamento das metrópoles contemporâneas em relação à dimensão protofenomênica da Kultur, que, desde tempos imemoriais, vem armazenando os principais caracteres cosmológicos para a realização de uma síntese unitária entre as esferas micro e macrocósmica.

Diversamente das peculiaridades espacio-temporais que discriminam o ritmo de desenvolvimento de cada complexo metropolitano, a Zivilization, compreendida como o agregado cosmopolita de metrópoles sujeitas a um constante processo de industrialização resultante do advento das máquinas a vapor, triunfou sobre a cultura primitiva do campesinato, triunfo “pelo qual [a cidade] se liberta do solo, e devido ao qual perece. Desarraigada, desprendida do elemento cósmico, entregue, irrevogavelmente, à pedra e ao espírito, cria a cidade uma linguagem formal a reproduzir todos os traços de sua índole; não os traços de um devir, mas os de algo que deveio, que está concluído, que pode ser modificado, porém não desenvolvido”. (SPENGLER, Oswald. A Decadência do Ocidente, p. 285)

Se o que caracteriza a civilização em Spengler é a materialização de uma tensão permanente entre a mentalidade citadina e o campo (e partindo do pressuposto insofismável de que este último se encontra muito mais estreitamente conectado com os componentes arquetípicos do imaginário cultural do que aquela), torna-se imperioso constatar que uma das forças motrizes da decadência da civilização ocidental é a perda do contato com a tradição apolínea (antiga) em virtude da entronização do romantismo faustiano, dionisíaco ou pós-cesariano (ocidental), qualificado pela separação do “espaço puro” e do “presente sensível”, separação que impossibilitaria a representação do deus cristão em esculturas e monumentos. “Atenas ou Apolo podem ser representados por uma estátua, mas há muito tempo que se sentiu claramente que a divindade da Reforma e da Contra-Reforma não podia “aparecer” senão na tormenta desencadeada por uma fuga de órgão ou no andar solene de uma cantada ou missa (SPENGLER, Oswald. A Decadência do Ocidente, p. 124)

A partir daí, o potencial criativo decorrente do contato do homem com a natureza cede espaço à explosão de sucessivas metamorfoses civilizacionais que viriam a culminar na obnubilação dos símbolos primordiais da cultura ocidental.

Todo esse raciocínio, carregado de um nível de sofisticação superior ao que a erudição agnóstico-materialista está acostumada a processar, nos conduz, inelutavelmente, ao levantamento da seguinte problemática: seria possível equacionar tradição e tecnociência em um mesmo eixo epistemológico com vistas à persecução de um rechancelamento da cultura primitiva que seja compatível com o progresso em um cenário pós-apocalíptico de catástrofes previsíveis? O presente estudo buscará a resposta para esta questão na teoria arqueofuturista do francês Guillaume Faye, que, estribada na filosofia do martelo de Nietzsche, provoca questionamentos acerca da viabilização do resgate de um arcaísmo apolíneo organicamente articulado com seu contraponto hig-tech, ou, com o espírito romântico de matriz eurocêntrica, elegendo o método do pensamento radical como principal lineamento epistêmico.

Para construir a tese do arqueofuturismo, Faye parte de três diretrizes fundamentais, quais sejam:

a) o fenômeno da convergência de catástrofes no espírito igualitarista do século XXI, que prenuncia o colapso da civilização ocidental, algo muito próximo do diagnóstico de Spengler. “A civilização igualitária nascida da modernidade está vivendo seus últimos dias. Temos que pensar no depois da catástrofe, construir uma cosmovisão arqueofuturista para depois do caos” – tradução livre do espanhol - (FAYE, Guillaume, El Arqueofuturismo, p. 25)

b) ideia de “construtivismo vitalista”, “que é um quadro de pensamento global que alia a concepção orgânica e hipotética da vida com as visões de mundo complementares da vontade de poder nietzscheana, da ordem romana e da sabedoria realista helênica. Leitmotiv: ‘um pensamento voluntarista concreto, criador de ordem’” – tradução livre do espanhol – (FAYE, Guillaume, El Arqueofuturismo, p. 24)

c) construção de uma neofederação de Estados europeus (ou “Estados Unidos da Europa”) centralizada em uma estrutura tipicamente imperial, que pressupõe também “geopoliticamente, e em particular por razões ecológicas, pensar a Terra, cidade global, como zona de vida comum interdependente, não como uma zona dirigida por uma multidão de atores nacionais, e sim por “blocos imperiais”: Grande Europa, India, China, América do Norte, Iberoamérica, Mundo Muçulmano, África negra, Ásia das penínsulas. Será o futuro. – tradução livre do espanhol – (FAYE, Guillaume. El Arqueofuturismo, p. 25)

Destarte, a estratégia de acoplamento entre tradicionalismo e progresso tecnocientífico em um corpus unificado, que nega (e é bom que se frise à exaustão) toda e qualquer dogmática monolítica, está inarredavelmente vocacionada para instauração da ordem no caos. “’Convergência de catástrofes’, ‘arqueofuturismo’, ‘construtivismo vitalista’: sempre tentei criar novos conceitos, pois só mediante a inovação ideológica se pode evitar as doutrinas fixas e obsoletas em um mundo que está mudando rapidamente e onde os perigos se materializam; porque um pensamento equipado com armas permanentemente renovadas pode ganhar a ‘guerra dos conceitos’, impor a realidade e mobilizar os espíritos”. – tradução livre do espanhol – (FEYE, Guillaume.El Arqueofuturismo, p. 4)

Este é o eixo em torno do qual gravitam todas as propostas de consolidação do programa arqueofuturista, e um dos motivos que levaram Faye a romper com a Nouvelle Droite, tendo este último dedicado o primeiro capítulo de L’Archéofuturisme a uma exposição minuciosa das razões que desencadearam tal ruptura. Não nos aprofundaremos nesta polêmica, uma vez que fugiria às latitudes do nosso objeto de investigação. Entretanto, cumpre consignar, no tocante a esse ponto, apenas que, no juízo de Faye, a Nova Direita havia degenerado em uma seita hermeticamente fechada, impermeável à recepção de um discurso inovador, que se deixara impregnar pelo paganismo neofolk em detrimento da tradição autóctone, de raiz. A despeito do valor que tal assimilação possa ter sob o prisma do tradicionalismo escandinavo, não é algo que, na visão do autor, ofereceria grandes contributos para a elaboração de uma cosmovisão tipicamente orgânica e subversiva desde uma perspectiva europeia.

Na atual conjuntura sócio-político-estrutural, a vanguarda dissidente deve buscar atalhos que lhe permitam escapar incólume do labirinto pós-moderno, sem, todavia, ignorar as vantagens oferecidas pelo avanço da ecologia, da epidemiologia, da biotecnologia, das ciências aero-espaciais e outros ramos do conhecimento tecnocientífico. Mas isso exige certa dose de escrúpulo e um planejamento calcado na conciliação com a tradição imperial. Neste sentido, poder-se-ia qualificar o movimento arqueofuturista como um dos tentáculos da “revolução conservadora”, termo repugnado por Feyes. “A palavra “Revolução Conservadora”, utilizada com frequência para definir minha corrente de pensamento, é insuficiente. Este vocábulo “conservadora”, tem uma conotação desmobilizante, anti-dinâmica, um tanto rançosa, pois não temos que “conservar” o presente nem retornar a um passado recente que fracassou, e sim reapropropriarmos das raízes mais arcaicas, é dizer, das mais afeitas à ideia de vitória. Um exemplo entre outros, desta lógica inclusiva: pensar juntos a tecnociência e o arcaísmo. Reconciliar Evola com Marinetti; o Doutor Fausto com O Trabalhador” – tradução livre do espanhol – (FEYE, Guillaume, El Arqueofuturismo, p. 4)

Portanto, o arqueofuturismo seria antes uma espécie de coordenação sinérgica de duas forças ou tendências a princípio contraditórias (o progresso tecnocientífico e o regresso às raízes ancestrais) do que propriamente um movimento reacionário, caracterizado por uma oposição sistemática a tudo o que é moderno, atual, a todas as formas de desenvolvimento que ameaçam a integridade do holismo comunitário. Em artigo intitulado El Arqueofuturismo, Miguel Usseglio resume a essência do arqueofuturismo nos seguintes termos: “o Arqueofuturismo vem de um pensamento radical, que pode abalar a inércia e fundi-la no caos, algo como “filosofar com o martelo”. Guillaume Faye situa o Arqueofuturismo como a visão de uma ordem nova, surgida a partir do caos (uma convergência de catástrofes), ou seja, uma ideia para o mundo da era pós-catastrófica”.

O arqueofuturismo, como uma visão de mundo alternativa, pretende-se, conforme termo cunhado por Feyes, uma “aliança filosófica apolíneo-dionisíaca”. “É importante, nesta perspectiva, preparar-se para um possível enfretamento e rompimento com o angelicalismo moderno da concórdia universal. É fundamental repensar a guerra, não a forma moderna de guerras nacionais, mas, como na Antiguidade e na Idade Média, sob a forma de confrontos vitais de grandes grupos étnicos ou etno-religiosos. Seria interessante pensar novamente em futuras formas em gestação, tais macro-solidariedades que eram o Império Romano ou a Cristandade Europeia”. – tradução livre do espanhol -(FEYES, Guilleume. El Arqueofuturismo, p. 46)

A propósito da crise do Estado-Nação de natureza absolutista (que levou Faye a conjecturar acerca de um cenário internacional baseado na integração de blocos continentais e a pensar na reconfiguração da plataforma geopolítica onde esses blocos se digladiariam através de uma nova forma de guerra), podemos evocar o magistério de Julius Evola sobre a usurpação da soberania pelas democracias ocidentais e a emancipação do indivíduo quando do advento das democracias contemporâneas. Nas palavras de Evola: “à emancipação em relação ao Império dos Estados que se tornaram <<absolutistas>>, deveria suceder-se a emancipação em relação ao Estado dos indivíduos soberanos, livres e autónomos. Uma usurpação atraiu e preparou a outra, até que, nos Estados enquanto Estados soberanos nacionais tinham caído na estatização e na anarquia, a soberania usurpada do Estado se vergou perante a soberania popular, em cujo âmbito a autoridade e a lei só são legítimas na medida em que exprimem a vontade dos cidadãos considerados como indivíduos particulares e os únicos soberanos - é o Estado democratizado e <<liberal>>, aguardando a última fase, a puramente colectivista”. (EVOLA, Julius. Revolta Contra o Mundo Moderno, p. 396)

Feye também não poupa essa lógica ultramodernista de emancipação do indivíduo em face do Estado a que alude Evola, se valendo do arcaísmo para confrontá-la: “Conforme a imemorável natureza humana, estes valores arcaicos rechaçam o erro da emancipação do indivíduo, crime cometido pela filosofia do Aufklärung, deixando apenas o indivíduo contra o Estado, monstro frio, e frente à barbárie social. Estes valores humano são apenas o sentido dos antigos gregos, porque miram no homem por aquilo que ele é, um zoon politicon (“animal social e orgânico inserido em uma cidade comunitária”), e não por aquilo que ele não é, um átomo assexuado e isolado possuidor de pseudo-“direitos” universais. Concretamente, esses valores anti-individualistas permitem a realização do si mesmo, da solidariedade ativa, a paz social, enquanto o individualismo pseudo-emancipador somente conduz à lei da selva”. – tradução livre do espanhol - (FEYE, Guillaume. El Arqueofuturismo, p. 42)

O surgimento das democracias liberais fornecem à hegemonia do politicamente correto uma nova base de sustentação, que, segundo Faye, não tem a ver com a ideia de “pensamento único” formulada por Alain de Benoist (a qual se reveste de um auto-vitimismo prejudicial à confrontação decisiva do atual estado de coisas), mas com a marginalização da ética dissidente. “O politicamente correto não se baseia em um sentimento ético sincero, nem sobre o medo físico de uma repressão, mas sobre um reflexo do esnobismo intelectual e da covardia social. Na verdade, o “politicamente correto” é politicamente elegante. Os jornalistas e os “pensadores” do atual sistema reproduzem de maneira “soft”[suave] e burguesa o mecanismo de apresentação da era stalinista: não se corre mais o risco de ser enviado a um campo de concentração, mas o de não ser admitido nos restaurantes e em outros lugares elegantes, de ser excluído dos círculos internos, de degustar as meninas bonitas, etc., se se emite alguma ideia à margem do sistema. É o que aconteceu com Jean Baudrillard. Ser politicamente correto não é uma questão de ideias, mas de integração social”. – tradução livre do espanhol - (FEYE, Guillaume, El Arqueofuturismo, p. 56)

O politicamente correto é, de longe, a maior força a serviço da manutenção do status quo, produzindo, em ritmo fervilhante, estereótipos grotescos para designar comportamentos não alinhadas à lógica de autoperpetuação das democracias modernas, um verdadeiro “soft-totalitarismo”, para usar uma expressão de Feye. É assim que, sob a ótica politicamente correta, propostas como o arqueofuturismo afiguram-se como uma síntese caricata de “fascismo” (porque afeito aos princípios que regiam o Sacro Império Romano), “xenofobia” (porque condena abertamente os grandes fluxos de massas de imigrantes em território europeu) e “nazismo” (porque subordina a tecnologia de ponta a uma ordem pretensamente simbólica e milenar). Contudo, não é despiciendo ressaltar que tais rótulos vêm servindo para deslegitimar a priori qualquer pensamento que não faça eco a mimetizações do discurso homogeneizado pelo mainstream ocidental. O próprio apelo a neologismos com o condão de fornecer significados a termos alógenos ao vocabulário popular sugere a deflagração de uma “revolução semântica”, a construção de pensamentos, senão total, pelo menos parcialmente desvinculada da forma mentis humanitária.

Outra sugestão importante do arqueofuturismo para a reestruturação da mentalidade dissidente é a ideia segundo a qual cada povo etnoculturalmente diferenciado é responsável pelo seu próprio destino, não havendo possibilidade de culpabilizar terceiros por eventuais infortúnios. Assim, se na época das colonizações um determinado povo foi sobrepujado por outro, isso não autoriza os invadidos a cobrarem “dividendos” dos invasores por aquilo que suas gerações pretéritas haviam realizado. Ora, é imperativo que o povo colonizado tenha a decência de reconhecer que seu insucesso, motivado por deficiências internas, constitui responsabilidade sua, e de mais ninguém. Insistir no contrário seria fomentar o discurso humanista, vitimista e igualitarizante, contribuindo para o engessamento do debate. Portanto, “o arqueofuturismo nos libertará desta praga que é o modernismo igualitário, em nada compatível com o século de ferro que está preparando: o espírito enfermo do humanitarismo que é um simulacro de ética e que transforma a “dignidade humana” em um dogma ridículo [...] Este espírito funciona como uma empresa de desarme moral, com suas proibições paralisantes, seus tabus culpabilizadores que impedem concretamente as opiniões públicas e os dirigentes europeus de fazer frente às ameaças”. (FEYE, Guillaume. El Arqueofuturismo, p. 53)

De todo o acima exposto, conclui-se que a proposta arqueofuturista constitui um importante arsenal dissidente contra a hegemonia do politicamente correto e seus consectários pseudo-humanistas que pululam na idade de ferro. A conciliação entre arcaísmo tradicional e futurismo tecnocientífico tem o desiderato de suprir o hiato que separa os universos apolíneo e dionisíaco, com vistas a um ideal de superação de uma dogmática pretensamente indefectível, imune à criação de novos conceitos, balizas e significados. Podemos interpretar o arqueofuturismo como a receita para o diagnóstico spengleriano acerca do declínio da civilização ocidental, e da urgência de se adotar medidas para impedir sua marcha ou, ao menos ,postergá-la. Um bom exemplo do que seria uma sociedade arqueofuturista pode ser contemplado nas páginas da série de quadrinhos O Incal, escrita por Alejandro Jodorowsky e ilustrada pelo magnífico Jean Giraud (vulgo Moebius).



REFERÊNCIAS:

SPENGLER, Oswald. A Decadência do Ocidente. Zahar Editores: Rio de Janeiro, 1973.

FEYE, GUILLAUME. El Arqueofuturismo.

http://www.crisolyaccion.com/15-09-2015/el-arqueofuturismo-2/  

 

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