Textos

A Dimensão Geopolítica do Conflito na Síria

20.04.2017

 

Entrevista concedida pelo Prof. Dr. Alexandre Hage ao CEM, realizada por Jean A. Carvalho


Professor Hage, em relação à atual guerra da Síria, quais são os verdadeiros objetivos das potências em torno do conflito? É correta a visão de que a vontade principal é “estabelecer a democracia” para os sírios?

 

“Democracia”, nesse sentido, é apenas um pano de fundo usado pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha para justificar suas ações militares, não só na Síria, mas em todos os países nos quais atuam. É necessária uma justificativa para aquilo que tem sido feito na Síria, e Democracia serve como esse álibi. Ninguém pode duvidar que o governo de Assad seja mesmo autoritário, mas o valor da Democracia não pode ser medido com base nessa única informação. É preciso verificar o valor da Democracia analisando se ela é mesmo capaz de garantir segurança e estabilidade para o povo sírio. Se o povo sírio se identifica com Bashar al-Assad e se sente seguro e protegido por ele, tentar impor um regime daquilo que se convencionou como Democracia é algo ilógico. Definir o valor da Democracia por esses termos é irracional.

 

Se tomarmos como exemplo o Iraque antes da queda de Saddam, notamos qual o real valor desse processo global de “democratização”: nos anos 70 e 80, Saddam conduziu uma série de processos no Iraque, talvez perceptíveis apenas na Europa (saneamento básico, industrialização, agricultura, pesquisa médica, etc.). Hoje, o Iraque está totalmente desestabilizado. O totalitarismo de Saddam, que, como em relação a Bashar, foi usado como pano de fundo para justificar a invasão do Iraque, não torna essa Democracia mais válida. O que importa são os efeitos reais e concretos dessa política.

 

Esse modelo democrático liberal, essencialmente francês, sempre foi estranho ao Oriente Médio, e provavelmente sempre será. Há níveis de democracia no Oriente Médio, mas em modelos e formas bastante diferentes daqueles que se encontram no Ocidente. Conduzir esse processo de imposição esperando que dele surjam instituições idênticas àquelas observadas no Ocidente é algo irresponsável – e desse processo surgem contrapesos e efeitos colaterais como o próprio ISIS [Estado Islâmico], efeitos extremamente negativos. E as potências que conduzem esse processo agem como se não fossem responsáveis por esses efeitos colaterais, por essas consequências.

Por exemplo, Aleppo era uma cidade pujante, dinâmica, um centro industrial. Hoje, a cidade praticamente não existe mais. Isso é muito grave, e mostra a dimensão das consequências desse projeto. A Síria era um país estável, mas não possui mais essa estabilidade. É a partir desses pontos que se deve medir o verdadeiro valor da Democracia.

 

Em relação à Rússia, o objetivo é manter proximidade com aquele que, talvez, represente o único país da atualidade que pode fornecer acesso da Armada russa às águas quentes. As pretensões da Rússia em relação à Síria são similares àquelas que se observa em relação à Criméia: manter acesso a essas águas. Sem essa “ponte” que a Síria representa, a Marinha Russa ficaria “presa”, sem mobilidade. As potências que querem a derrubada de Bashar também têm por objetivo impedir a concretização dessa proximidade, restringindo a mobilidade russa na região. Isso mostra que as questões geográficas ainda são muito relevantes.

 

Em relação a Trump, o que ele significa para o conflito sírio e como suas ações mais recentes podem ser interpretadas?

A presidência Trump apresenta várias incongruências. Se, com o disparo de cerca de cinquenta mísseis contra uma base militar da Síria, a intenção de Trump era dar um sinal de força, ele falhou nesse propósito. Primeiro, porque isso contradiz o discurso dele, adotado desde o início de sua campanha, que era justamente o de uma amizade maior com Rússia, Irã, China, Síria e outros países. Segundo, porque, se a vontade era a de reafirmar a força dos Estados Unidos e mostrar que o país ainda é a primeira potência, esse foi um gesto de infantilidade: ninguém, nem mesmo esses países, duvida de que os Estados Unidos sejam mesmo um agente de peso.

 

Muitos interpretam esse ataque militar contra a Síria como uma mensagem de força para a Rússia, o Irã e a China, uma mensagem de que os EUA estão ativos e são fortes. Entretanto, isso é muito mais um sinal de fraqueza e de demonstração da instabilidade interna na política dos Estados Unidos da América, além da submissão de Trump à pressão da oposição interna. Se Trump continuar se mostrando incapaz de agir por conta própria, só restarão três saídas a ele: ou ele se submete inteiramente à oposição, ou continua instável ou renuncia.

 

O eleitorado de Trump é o do típico “americano de pescoço vermelho”, aquele estadunidense que quer comer seu hambúrguer no final de semana e que não quer se envolver muito (nem se preocupa) com questões políticas complexas; a maior parte da oposição do governo dele é composta por militâncias tipicamente pós-modernas, feministas, grupos LGBT e “humanistas” em geral. A ação de Trump contra a Síria é mais uma prestação de contas diante dessa oposição do que uma demonstração de fidelidade em relação à base de seu eleitorado. Ou seja, mais do que uma demonstração de força, foi um gesto de dependência e fraqueza, que mostra que Trump se submeteu às forças globalistas dentro dos EUA (como o CFR*, por exemplo).

 

Com essas atitudes, Trump abre as portas para o debate sobre a tese de que muito provavelmente ele já tenha sido cooptado pelas forças globalistas desde o início. Se a motivação ele era punir Bashar pela suposta utilização de armas químicas (o que não faria sentido nenhum para Bashar, já que a Síria estava ganhando terreno contra o Estado Islâmico, vencendo a guerra), ele falhou, já que Bashar continua no poder. E, se o objetivo dele era mostrar força diante da Rússia (mais especificamente), China e Irã, nenhum de seus objetivos se concretizou: a Rússia continua com relações próximas em relação à Síria, a China permanece a mesma de sempre e o Irã continua firme na região.

 

Não faria sentido Bashar usar armas químicas contra seu próprio país, seu próprio povo, especialmente nesse momento. Ainda mais sabendo das implicações e consequências que isso acarretaria para ele. Trump com certeza não foi motivado pelos supostos “ataques químicos”, mas sim pelas forças pelas quais foi cooptado.

 

Vale ainda ressaltar que o trânsito que se chama de “Direitos Humanos” acaba servindo para esses desígnios também. Como no Brasil, onde, pela análise dos “Direitos Humanos”, há um reducionismo das questões relativas à segurança pública, o mesmo é feito em relação à Síria. Critica-se, aqui, a militarização da polícia, mas não se leva em conta outros contextos. Em qual outro país do mundo (que não esteja numa guerra declarada) criminosos apontam armas para o alto e derrubam um helicóptero das forças policiais? Seja em relação ao Brasil ou à Síria, a instrumentalização dos Direitos Humanos é a mesma.

 

Nesses espectros, no Brasil, se reúnem essencialmente elementos da Esquerda universitária, ao estilo do PSOL. A instrumentalização dos Direitos Humanos é feita em conjunto com o processo de impor elementos de foro íntimo como questões de Estado, e de marginalizar o debate de questões que são efetivamente de Estado. Esses processos que vemos no Brasil são reflexo daquilo que aconteceu cinco anos atrás na Europa e nos EUA. Esses projetos culturais foram desenhados nos anos 1960, e estão sendo transportados para o Brasil agora. Por exemplo: o modelo fordista já foi esgotado nos EUA, mas apenas começou a ser implantado no Brasil.

 

Isso significa que nosso país é atrasado, marginalizado em relação às potências – ao menos nesses aspectos. Isso não é inteiramente ruim, já que a capacidade de copiar instantaneamente esses processos significaria uma homogeneização mais rápida do Brasil. Os países que resistem mais a esse processo são justamente aqueles que possuem uma força cultural e tradicional.

 

É possível uma resolução para o conflito da Síria? Qual o desfecho mais provável?

Em curto prazo, não há solução para o conflito na Síria, porque o governo Assad quer se manter de pé. O mais provável é um simples acordo. Eu não acredito que Assad vá cair; mas talvez ele aceite algumas condições e normas impostas. A Rússia não vai abrir mão da amizade com a Síria, nem a Síria vai abrir mão da proximidade política com a Rússia (que tem sido especialmente ampliada durante o governo de Putin).

 

Se Trump prosseguir nesse curso, ele vai acabar criando uma tensão imensa com efeitos inimagináveis para todas as partes (e talvez para o mundo inteiro). Já existem tensões na Palestina, na Líbia, no Iraque, e agora na Síria. Esse quadro não é positivo. Um acordo vai ser feito, mas, se as intenções dos EUA serão concretizadas, já não é algo que está garantido. E, se houver essa resolução, com certeza ela não vai incluir a queda de Assad.

Se for para retirar Assad, o mais provável é que ele seja substituído por alguém que seja capaz de assegurar os interesses da Rússia na região. De todo modo, quem continua com a dianteira na Síria são os russos.

 

* Sigla para Council on Foreign Relations (Conselho para as Relações Externas), entidade fundada em 1921 e sediada em Nova Iorque, especialmente influente na geopolítica dos Estados Unidos e com grande representação político-econômica.

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