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Trabalho: Mais um Ataque da Hegemonia Liberal à Identidade Coletiva

 

O projeto de homogeneidade global, conduzido pelos atlantistas, é um projeto para além do campo econômico, não limitado por ele. Entretanto, economia é um dos carros-chefe desse constructo de governo global. A diluição de todos os conceitos de coletividade é um pré-requisito para a concretização da unipolaridade. As noções de etnia, nação, religião, gênero e mesmo espécie (a entrada no pós-humanismo) – todas as noções essencialmente coletivas – são dissolvidas no campo subjetivo da ultra-modernidade.

 

Um dos poucos laços coletivos que ainda persistem na ultra-modernidade, ainda que bastante enfraquecido pelas investidas do liberalismo (tanto no campo econômico quanto mental, cultural e psicológico), é o do trabalhismo. Trabalhadores ainda se reconhecem enquanto classe; o trabalhador ainda se sente ligado e pertencente a um coletivo, uma identidade manifesta organicamente, compartilhada. Este é um dos pequenos entraves ainda existentes à tentativa de concretização plena do liberalismo e da ultra-modernidade.

 

A retórica do mercado absoluto, reinante, consciente (um ente em si mesmo, autônomo e independente do homem), da necessidade de destruir fronteiras e alfândegas, de expandir e tornar ilimitadas as atividades comerciais e financeiras se depara com os anseios da massa trabalhadora – uma massa que precisa ser suprimida para que a concretização da economia (como um fim em si mesma) seja viável.

 

Assegurar direitos legais à classe trabalhadora significa dar reconhecimento jurídico ao trabalhador enquanto pertencente a uma identidade coletiva, a uma coletividade. Isso contradiz o programa de hegemonia atlantista, de mundo unipolar movido pela (i)lógica do lucro. Retirar esses reconhecimentos e direitos legalmente estabelecidos significa eliminar o reconhecimento social e jurídico dos trabalhadores enquanto classe, viabilizando, assim, a diluição também desse outro laço coletivo de identidade.

 

As greves atuais (em específico, a Greve Geral que se desenrola neste dia 28 de abril) são uma tentativa de prolongar o proletariado enquanto sinal de pertencimento. São, em grande parte, respostas de anseios populares e de uma vontade de resistência contra a aniquilação do trabalhador como sujeito pertencente a um grupo, contra as bases de sua dignidade não só material, mas também moral e espiritual.

 

A destruição dos laços coletivos garantidos pelo trabalho não acontece somente no Brasil. Projetos anti-trabalhistas bastante semelhantes àqueles que notamos por aqui são impostos, neste exato momento, em inúmeros outros países. É um projeto ao mesmo tempo hegemônico e simultâneo.

Assim sendo, as greves são uma resposta natural e legítima da classe trabalhadora, do organismo que se reconhece como tal e que ainda não abriu mão da percepção natural de que há, sim, antagonismos entre classes e grupos, antagonismos esses que persistem no mundo contemporâneo. Entretanto, se as greves são um fenômeno natural da admissão desses antagonismos e uma resposta mesmo instintiva contra uma tentativa de supressão do trabalho como elemento de construção duma identidade coletiva, a multiplicidade das pautas e a falta de coesão demonstram que a Segunda Teoria Política (o comunismo/socialismo), embora prolongando a vida de seu sujeito (a classe), ainda se mantém incapaz de organizar uma frente coesa contra o liberalismo, ou até de perceber que o projeto liberal atua para além da matéria.

 

Tendo sido superada na ultra-modernidade, a Segunda Teoria Política perdeu também seus instrumentos efetivos de combate. Entretanto, aceitar a derrota do Comunismo não significa deixar de legitimar a persistência dos trabalhadores enquanto classe, seus anseios enquanto organismo e as necessidades de seus sujeitos enquanto pessoas. A leitura da Quarta Teoria Política, que é uma Política da Presença, deve ser também uma leitura de reforço do trabalhismo e da figura do trabalhador, assegurando a utilidade do trabalho em oposição ao capital, da produção em oposição à especulação. Defender as pautas trabalhistas postas nessa greve, e em qualquer outra onde elas sejam justamente afirmadas contra a hegemonia, é também defender uma forma de coletividade contra a concretização do vazio liberal pleno.

 

Encontrar pautas comuns e forçá-las por meio de movimentos de massa contra a pequena elite parasitária é um dos caminhos para se abrir alternativas à hegemonia; é um front que sempre foi e continua sendo importantíssimo, e do qual não devemos ser traidores.  Um mundo multipolar exige, por excelência, a superação do sistema financeiro global, que é um dos braços da hegemonia liberal – e essa superação dá-se pela valorização da produção efetiva contra o virtualismo das Bolsas de Valores, e o sujeito histórico responsável pela produção das riquezas: o trabalhador.

 

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