Textos

Jardins do Paraíso

“Feliz o momento em que nos sentarmos no palácio,

dois corpos, dois semblantes, uma única alma

- tu e eu.

 

E ao adentrarmos o jardim, as cores da alameda

e a voz dos pássaros nos farão imortais

- tu e eu.

 

As estrelas do céu virão contemplar-nos

e nós lhe mostraremos a própria lua

-  tu e eu.”

 

Rumi (trecho do poema)

 

Através da linguagem inspirada de seus poetas, a mística persa consagrou o arquétipo do jardim do paraíso. Embora a noção seja pouco conhecida no Ocidente, dado que a atrofia dos campos imaginários também praticou aqui sua poda cíclica, ela é fundamental para compreender o cerne de algumas contemplações artísticas que sempre permearam a arte iraniana.

 

Etimologicamente, a palavra persa (avéstica) “pairi-daeza” significa “espaço fechado” e foi transportada para as tradições judaicas e cristãs na representação do Paraíso. Para termos uma ideia do poder desse símbolo, o poeta Saadi - venerado em sua terra como um dos grandes poetas místicos da humanidade - denominou suas principais obras poéticas de “Gulistan” (Rosal, Jardim das Rosas) e “Bustan” (Vergel, horto). O Vergel e o Rosal são, na verdade, contas – como as de um terço - místicas em que o poeta vai desenvolvendo temas psicológicos, morais, religiosos e místicos. Para o vate persa, o paraíso ainda não estava fadado ao interdito eterno: poderíamos recriá-lo, ao menos em alguma medida, cá na terra. Daí que os jardins iranianos, também representados nos tapetes persas e nas suntuosidades arabescas, sejam conhecidos como a representação do “imago mundi” e não poderíamos nos furtar de dizer que se há toda uma hermenêutica – arquitetônica e esotérica- das catedrais é preciso também que se recriem as interpretações simbólicas dos jardins.

 

Com sua fonte caudalosa ao centro, para onde convergem todos aqueles que perambulam pelas estradas ermas, o jardim do paraíso também dá alento em suas riquezas: a água cristalina que rememora a vida eterna, os aromas de frutas frescas que se espalham pela campina em flor, a sombra onde repousa a cabeça do escriba. É também do centro que emanam quatro rios que irão alimentar a cidade que dorme nas adjacências do vergel.

 

 Se nas catedrais góticas prevalecem os geométricos esquemas de transeptos, abóbadas e vitrais para que seja criada a luz dentro das naves, o jardim recebe a luz do Sol em sua totalidade e os ramos que ali se criam vão se fortificando com os próprios engenhos da natureza. Os aromas do jasmim branco, da rosa damasquina e do narciso recendem em todo o jardim e recordam a origem divina do homem que se deixou absorver no êxtase e nos perfumes do Bem Amado.

 

Na música persa, o iraniano Bijan Chemirani também produziu seu “Gulistan”: uma coletânea de músicas instrumentais com influências de diversas partes do oriente-médio e regidas pelo “tompak”, ou “zarb”, instrumento tradicional da Pérsia que rege a cadências das canções inspiradas no clássico de Saadi.

 

Encontrar com o jardim do paraíso - ainda que no sonho, na imaginação ou na memória - é a lembrança de que a fealdade não é a sombra perpétua: mesmo o homem moderno deita suas raízes lá onde isso não deixou de ser.

 

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