Textos

A Juristocracia dos Cleptocratas

Estamos testemunhando um processo de criação artificial duma atmosfera de renovação moral, a ação de esquadrinhar a corrupção e saná-la em suas origens. Um processo falso em si mesmo, já que essas origens não são (nem nunca foram) desconhecidas; aliás, grande parte de seus próprios agentes hoje compõem a mesma casta que se arroga moralidade, civismo e que ergue os estandartes da luta contra a corrupção.

 

Presenciamos uma “revolução silenciosa” de caráter antipopular, essencialmente elitista, técnica e formal: o fim do presidencialismo, do regime de eleições populares e diretas, e sua transmutação para um sistema de juristocracia parlamentarista (ou semi-parlamentarista), a cleptocracia de toga.

Juízes elevados aos mais altos patamares, considerados intocáveis e que legislam em causa própria, ignoram o próprio rito processual e se personalizam como a Lei em si mesma, não como seus representantes ou serviçais; a eleição do juiz não como um observador isento, imparcial e pautado pela sabedoria, mas sim por uma carga ativa, com bandeiras definidas e que surge como resposta a uma demanda popular por justiça (ou, no caso, justiçamento, vingança).

 

A eleição de juízes como representantes máximos do poder, acima das prerrogativas constitucionais e contra os quais não há artifício. Rui Barbosa já advertia para o perigo duma ditadura do Judiciário, pois, segundo o saudoso, “contra ela não há a quem recorrer”.

 

Toda a cruzada moral em torno da Lava Jato tem como objetivo central e leitmotiv a invalidação da candidatura de Lula para as próximas eleições (se é que de fato elas vão acontecer). Tudo o que foge disso ou qualquer outro efeito colateral oriundo desse processo pode ser considerado como mera fatalidade, um desdobramento que não representa o objetivo principal. A casta, a elite política em si, sabidamente formada por corruptos, continua essencialmente intocável - e essencialmente irmanada ao Judiciário.

 

Dessa forma, o velho sistema morreu, mas os velhos do sistema continuam vivos. E esse clamor moralista vem das mesmas bocas que firmam acordos de corrupção, as mesmas bocas que, invocando o mesmo Deus que ignoram, suas famílias (que enriquecem com seus salários) e os povos que negligenciam, subiram nos palanques para criar uma tônica de retidão, votando pelo Impeachment de Dilma Rousseff.

 

O processo de Impeachment foi um meio, um recurso de emergência de uma elite (que nada mais é do que a escória, a reunião daquilo que há de pior no país) desesperada em salvar a si mesma. Elegendo alguns alvos essenciais, essa mesma elite, sempre cúmplice das mesmas corrupções que agora denuncia (se bem que, nesse momento, não tão fortemente), pôde escapar das atenções. Não estão na linha de tiro – e provavelmente nunca estarão.

 

Os efeitos práticos dessa “cruzada moral” são essencialmente nulos: as figuras principais continuam impunes, o dinheiro da corrupção não será recuperado (não que isso seja impossível, mas porque não é o objetivo central) e muito menos devolvido ao povo e não haverá uma renovação moral na política porque os próprios condutores desse processo de “moralização” são figuras absurdamente imorais. A efetiva luta contra essa corrupção sistêmica passaria por um processo essencialmente transformador, popular e pró-Brasil: segurança, educação, saúde, soberania, dignidade ao trabalhador e fomento ao setor produtivo. Há a sabotagem sistemática da economia, a desestabilização consistente da política e a retirada de qualquer dignidade do brasileiro enquanto não só cidadão, mas sujeito, pessoa humana. É uma política estritamente anti-humana.

 

 

O próprio juiz federal Sérgio Moro, eleito como o paladino máximo dessa cruzada “moral”, tem íntima afinidade com uma série de cleptocratas: Aécio Neves e Temer são apenas duas das figuras que se pode mencionar. Enquanto o caráter é de proximidade, ambiente amistoso e, no mínimo, de mais tolerância em relação a essas figuras, a carga pessoal é mais forte em relação a Lula: os réus são tratados de forma diferente pelo mesmo juiz. Aliás, no caso dos protegidos, sequer são considerados como réus. Temer está absolutamente seguro. Aécio, pelo que parece, também. E se a cadeira dos acusados um dia for ocupada por eles, certamente os instrumentos serão muito mais brandos.


Vemos um processo no qual os próprios cúmplices elegem alguns réus e salvam a si mesmos, em delações infinitas onde o essencial é livrar a si mesmo. O surgimento desse novo arranjo político é feito com as mesmíssimas figuras. Os homens de toga combaterão corruptos, mas não todos – é preciso manter a estrutura para a casta com a qual se tem afinidade. A essência continua sendo o desmantelamento do Brasil e a condução dum projeto estritamente anti-povo, anti-trabalhador.  Nihil sub sole novum.

Etiquetas:

Please reload

Etiquetas

Tipos

Arquivo

Please reload

Please reload

Please reload

CEM branco.png
  • Branco Facebook Ícone
  • Branca Ícone Instagram
  • Branca ícone do YouTube

© 2015-2019  CEM

Contato

cem@portalcem.com

W 11 9 6842-0340

Brasil

Avenida São João, 313/2o. andar

CEP 01035-000

Centro

São Paulo-SP

Rússia

Rua Tverskaya, 7/605

125375

Moscou

Federação Russa

Российская Федерация

125375

Москва

Тверская улица

7, 605

Horário de funcionamento

segunda a quinta

9:00 às 21:00

sexta

9:00 às 17:00

feriados

fechado

Inscreva-se!