Textos

A Importância da Geopolítica Ferroviária

25.05.2017

 

No segmento de infraestrutura logística, a matriz brasileira de transportes representa uma das principais causas da ineficiência desse sistema do país. A sobrecarga existente no transporte rodoviário constitui grande barreira ao crescimento dos demais modais de transportes. Não houve o planejamento adequado para a diversificação dos modais, principalmente do modal ferroviário. Como resultado, possuímos sérios gargalos, que constituem verdadeiros obstáculos ao crescimento econômico e industrial do Brasil, restringindo inclusive a locomoção da população como um todo pelo território nacional e no estado do Rio de Janeiro especificamente.

 

A disponibilidade em instalações ferroviárias e redes de transportes eficientes tanto no transporte de cargas como no de passageiros, no Brasil, ainda é um grande desafio para a estruturação e aplicação de políticas para o melhoramento no sistema de transporte no país. Por outro lado, vê-se que, aos poucos, os gestores públicos percebem a importância de se pensar um país sobre trilhos. Essa é, sem dúvida, uma tendência positiva, mas requer atenção especial por parte dos geógrafos e geopolíticos, em particular.

 

Interessante apontar que em outros países de proporções continentais como Rússia, China e EUA, a preocupação e o planejamento com a estrutura de transporte ferroviária são levados muito a sério.

 

Para efeito de comparação observa-se que na Rússia já foram construídos 87 mil km de ferrovias, dos quais 43 mil km são eletrificados. Em 2013, pelas vias férreas desse país, foram transportados 1,08 bilhão de passageiros e 1,38 bilhão de toneladas de carga,de acordo com os dados estatísticos publicados no site da Holding “Estradas de Ferro da Rússia” (RZD), em 2016. A empresa estatal RZD conta hoje com 1,2 milhões de funcionários, 20.000 locomotivas, 25.000 vagões de passageiros e 650.000 vagões de cargas. Por outro lado, a China conta com 121 mil km de ferrovias, sendo 13 mil de alta velocidade (até 350km/h). Por ano, são transportados em média 2 bilhões de pessoas e mais de 3 bilhões de toneladas de carga. Nos últimos cinco anos foram investidos US$ 40 bilhões nas ferrovias do país. Já nos EUA, observamos a mais longa estrada de ferro nacional do mundo, o país possui 250 mil km de ferrovias. Interessante o quadro comparativo que segue abaixo sobre os modais de transporte em grandes países.

De uma forma muito compacta pode-se ressaltar que a situação das ferrovias hoje no país é desfavorável ao crescimento econômico nacional, levando-se em consideração as dimensões do país. Apenas 20,7% de todo o transporte anual de cargas no Brasil é efetuado pelo modal ferroviário, dentro da matriz de transportes do país (CNT, 2014). Desde as primeiras concessões ferroviárias há 150 anos e até os dias de hoje constatamos que os traçados e linhas ferroviárias nunca respondiam de forma plena às necessidades da população e dos setores produtivos do país. Assim, otransporte ferroviário no Brasil possui uma rede de apenas 30.129 quilômetros de extensão, dos quais apenas 1.121 quilômetros são eletrificados, estando espalhados por 22 estados brasileiros e o Distrito Federal. São dois tipos principais de bitolas, sendo que o país possui ligações ferroviárias, apenas com a ArgentinaBolívia e Uruguai e a maior concessionária hoje no Brasil é a RUMO que opera quase 12.000 km de ferrovias (CNT, 2014).

 

Para se ter uma ideia mais completa do mapa ferroviário brasileiro vejamos abaixo a figura com os principais traçados existentes e planejados no chamado Programa de Investimento em Logística (PIL-2013)

Figura 1 – Ferrovias existentes e as futuras de acordo com PIL

 

Por outro lado há discussões e formulações de projetos muito interessantes em curso na Rússia. O que está se discutindo na Rússia, assim como em outros grandes países é de fato a nova tendência mundial para o transporte de passageiros em massa em trens de alta velocidade.18 países no mundo já utilizam as novas tecnologias de locomoção de grande volume de passageiros em alta velocidade, com mais de 33 mil km de vias construídas e em uso pleno. Nos próximos 10 anos serão construídos pelo menos mais 20 mil km de vias expressas de alta velocidade. 

Se o país é grande a velocidade para se locomover dentro dele também deve ser grande. As pessoas estão deixando de lado o carro, ônibus e avião e mesmo os trens tradicionais e viajando em trens de alta velocidade (acima de 300 km/h).  O trem de alta velocidade entre regiões com grande densidade populacional se tornou uma espécie de "metro inter-regional". Ele deve ser rápido e constante, acessível, como um metro. Esse é o conceito-chave em debate.

É o chamado fenômeno da procura induzida, ou seja, quando não é necessário marketing e propaganda para o cidadão entender o que é melhor pra ele, que acaba escolhendo o trem de alta velocidade por vontade própria.

 

Está em curso na Rússia um grande projeto de construção da Estrada de Ferro de Alta Velocidade Moscou-Kazan, eis algumas características:

  • São 770 km de via expressa de Trem de Alta Velocidade até 360 km/h;

  • Serão mais de 20 segmentos da indústria a serem atraídos para o projeto, formação de pelo menos 1.000 novas empresas e pelo menos 50 mil novos postos de trabalho, com relevante incremento no PIB regional;

  • Prazo para realização da obra em 4 anos, até 2020; 

  • Custo estimado em cerca de 20 bilhões de dólares todo o trecho a ser financiado pelo Banco BRICS, Banco Asiático de Desenvolvimento, pelo Governo central da Rússia e por empresas participantes do projeto.

  • As empresas privadas que farão investimento terão retorno em até 10 anos. 

No futuro essa via expressa chegará até Pequim e será possível percorrer o trecho Moscou-Pequim em 32 horas, e o trecho Berlin-Pequim em dois dias. É por isso que os alemães e chineses estão muito interessados nesse megaprojeto para poder transportar grandes fluxos de passageiros e cargas variadas em curto espaço de tempo. 

 

As empresas da Rússia, Alemanha e China fornecerão parcialmente a parte tecnológica, infraestrutura e investimentos. 85% de toda a produção de peças e equipamentos pelos Acordos deverão ser produzidas em território russo. 

 

A expectativa é transportar 10 milhões de passageiros já no primeiro ano de funcionamento da via expressa Moscou-Kazan chegando a 25 milhões de passageiros/ano em pouco tempo. Serão 16 paradas em 5 grandes regiões. A estatística mostra que o transporte de passageiros em trens de alta velocidade será mais lucrativo do que o transporte de cargas em estadas de ferro em menos de 30 anos devido ao rápido aumento do fluxo de passageiros. Aqui foi usado nesse projeto a tecnologia Trimble Quantum, scanner a laser de modelagem 3D do relevo e topografia, um sistema digital inovador para projeção de grandes áreas, feita por avião.  

 

A questão para debate que eu gostaria de inserir aqui é a seguinte: Por que não imaginarmos um Corredor Estratégico de Infraestrutura e Comunicação como o da Rússia aqui no Brasil? Podemos desenhar um corredor de Vitória passando pelo Rio de Janeiro (no traçado da atual EF-118) e seguindo para o Sul, via São Paulo, Paraná (Paranaguá e Foz do Iguaçu), Paraguai, Argentina e Chile (Antofagasta), ou seja, cortando todo o MERCOSUL, até o Pacífico.

 

Tal trecho, Corredor Estratégico MERCOSUL (Vitória-Antofagasta), não seria somente um corredor ferroviário, mas também um mega canal de comunicação e infraestrutura (gasodutos, redes elétricas, fibra ótica, ferrovia, novas indústrias e cidades). Há disposição de equipes técnicas para iniciar os desenhos iniciais, há possibilidade de financiamento tanto do projeto em si, como para a execução do mesmo, através de organizações, fundos e bancos da Rússia e da China (há interesse concreto em conectar o Atlântico ao Pacífico, porém não pelo eixo do Peru e sim pelo eixo de Capricórnio, via Chile). 

 

Tudo é uma questão de organização de um Grupo de trabalho dos três países (Brasil - Rússia - China) para iniciar os debates iniciais e traçar as etapas de planejamento. Podemos montar um caderno inicial com Proposta técnico-econômica e transmitir ao próximo Governo em 2018 ou em 2019. 

 

O trecho da EF-118 é emblemático e simbólico, pois apresenta diversos atrativos que podem e já despertam atenção de vários possíveis grupos e investidores chineses, russos, alemães e espanhóis. Esse trecho pode ser visto como a Fase 1 do megaprojeto.

 

 Figura 2. Traçado da EF-118 (Rio-Vitória) e acesso aos principais portos da região.

 

O projeto de Corredor estratégico de infraestrutura e comunicação é um verdadeiro símbolo de desenvolvimento e genialidade do ser humano, do raciocínio humano, da engenharia ferroviária e toda a gama da indústria capaz e necessária em seu entorno.

 

Precisamos ser mais audaciosos e ambiciosos, precisamos de megaprojetos factíveis e reais, precisamos pensar um NOVO BRASIL!  

 

Segue o link do vídeo sobre construção da via Moscou-Kazan: 

https://www.youtube.com/watch?v=pPALhcsAN_w  

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