Textos

Algo sobre o Personalismo

05.10.2017

         

                                                     A Olga e Sergio, limenhos de minha importância

 

Em visita ao Peru, nos chamou a atenção que os cidadãos ilustres como o professor Flores Quelopana e o advogado Sergio Tapia solicitaram, em circunstâncias distintas, minha opinião acerca do Personalismo. Tínhamos guardado o tema na memória, exceto pelo convite anual das minhas compatriotas, as professoras Cristina Roth e Inés Riego, a participar do congresso sobre o tema.

 

O Personalismo tem uma longa história que, modernamente, podemos começar com Kant e sua valorização da pessoa como tendo valor em si mesma e não como meio para outra coisa. E podemos seguir a lista com o dinamarquês Kierkegaard e a pessoa como o singular e concreto em oposição à humanidade que não tem nem mãos nem pés.

 

Também encontramos algo em Dom Miguel de Unamuno.

 

Porém o verdadeiro fundador do Personalismo foi o francês Emmanuel Mounier (1905-1950) que com suas ideias de encarnação, comunhão, dialética do amor, a vida como aventura, o sair de di mesmo, o tomar sobre si, implantou a ideia de pessoa.

 

Pensadores como Maurice Nédoncelle, Gabriel Marcel, incluindo Jacques Maritain em alguns pontos, continuam no desenvolvimento destas ideias. Para terminar com o Papa Wojtyla e sua tese sobre Pessoa e ação.


A leitura destes autores e outros mais sempre nos deixa a sensação de um vazio metafísico que não pode ser preenchido. O Personalismo se apresenta como carente de uma metafísica strictu sensu. De fato, é uma corrente filosófica com um grande conteúdo emocional e cordialista, mas que não pôde, até agora, se fundamentar em uma metafísica adequada. Houve tentativas como a de Nédoncelle, mas não foram mais que declarações agradáveis. Sucedeu ao Personalismo, mutatis mutandi em metafísica, o que ocorreu à Filosofia Latinoamericana da Libertação: permaneceu apenas como um programa sem carregá-la de conteúdo.

 

É entendível que em torno do mundo cristão se veja com bons olhos e se valorize este tipo de filosofia. Sobretudo a partir do momento que o mundo cristão e seus valores perderam toda força social de aplicação. Nunca se enfatizará demais sobre o esgotamento e o tempo indigente que vive o cristianismo hoje em dia. E nesse sentido pode-se explicar a vigência renovada do Personalismo, como uma maneira de ser cristão em um mundo dessacralizado.

 

Outra coisa muito distinta, embora pareça relacionada, é a meditação, que desde a filosofia em sentido estrito, é feita sobre a pessoa. Este tema foi sem dúvida o filósofo alemão Max Scheler (1874-1928) quem com maior profundidade o estudou.

 

Durante mil e quatrocentos anos repetiu-se a definição de Boécio (480-525) Persona est naturae rationalis individua substantia (a pessoa é uma substância individual de natureza racional). Logo veio Ricardo de São Vitor (1110-1173) que falando sobre a Trindade (não esqueçamos que toda a meditação sobre a pessoa nasce como um problema teológico trinitário) agrega o recurso da existência. Quando se questiona sobre a substância o faz através do quid est=que é, quando o faz sobre a pessoa se questiona quis est=quem é. O que sempre exige um nome próprio; uma propriedade singular= proprietas singularis. A pessoa já não é pensada como algo e sim como alguém. Assim, a natureza racional é possuída por alguém e não apenas por algo. Logo vem Duns Scoto (1266-1308) que sustém que a pessoa ultima solitudo est=é a última solidão, por seu caráter incomunicável: A incomunicabilidade cabe exclusivamente ao quo persona est persona, à pessoa enquanto pessoa e não à natureza.

 

A meditação sobre a pessoa humana (a pessoa divina foi largamente estuda durante toda a Idade Média) nasce propriamente com Kant, continua com Kierkegaard e se completa com Max Scheler. É este último, como dizemos, o que com maior profundidade adentra o tema.

 

Descreve a pessoa através das características de ser única, singular, irrepetível, moral e livre, pois a pessoa não é objeto de estudo e sim de descrição e fenomenologia. É unida pela unidade de suas ações de essência diversa. É singular porque é superior ao gênero. É irrepetível, porque seus atos são assim. É moral porque o bem se faz de uma só maneira e o mal de muitas. E é livre porque a liberdade é um atributo da pessoa e não de determinadas ações como o querer.

 

A pessoa é o centro metafísico de nossas experiências e atos. E somente através das pessoas, sejam santos, heróis ou gênios, poderão os valores operar no mais íntimo do mundo.

 

A liberdade é um atributo do espírito e este existe apena de forma pessoal. O esforço de Scheler é desvendar uma ontologia do espírito a propósito da pessoa.

 

E assim afirma que falar de espírito impessoal é uma contradição, pois a pessoa é a única forma de existência do espírito. O “eu” não pertence à essência do espírito, e sim à esfera do psíquico.

 

Todos os seres humanos, homens e mulheres, somos apenas iguais em dignidade – e esta é dada pela pessoa -, mas somos desiguais em todo o restante. Entender isto é compreender o centro metafísico que ocupa a pessoa. Assim, tanto o igualitarismo como o coletivismo, correntes falsas do cristianismo, se encontram desmentidas em um claro conceito da pessoa.

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