Textos

Uma Análise sobre o Conceito de Colonialidade do Saber de Aníbal Quijano

O pensador peruano Aníbal Quijano é provavelmente um dos maiores críticos latinoamericanos do imperialismo e do colonialismo. O conceito de Colonialidade de Poder, que inclui a Colonialidade do Saber (ou Colonialidade do Pensamento) é um trabalho essencialmente quijanista. Suas análises têm influenciado grandemente os campos de estudo sobre o colonialismo e o de-colonialismo e a teoria crítica.

 

Entretanto, visto de um modo puramente econômico, como vê a maioria da Esquerda, a dinâmica de imperialismo/colonialismo é uma construção de fundo mental-psicológico. É esse âmbito que Quijano pretende investigar com mais veemência.

 

O processo de dominação e de hegemonia global (o fenômeno abordado por Dugin como a construção da Unipolaridade, ou seja, a centralização das estruturas de poder em torno da figura dos Estados Unidos enquanto agente geopolítico de dimensões globais) é viabilizado por meio de uma supremacia intelectual. É na consolidação desta supremacia intelectual que a unipolaridade (com efeito, a verdadeira mentalidade colonialista e imperialista da nossa época) reside e é por meio dela que esse projeto pode ser mantido e ampliado. É exatamente por meio do colonialismo intelectual, a colonialidade de saberes, que o "Fim da História" apontado por Francis Fukuyama pode ser vislumbrado.

 

Esse domínio das ideias não só afirma o "Mundo Desenvolvido" (mais acertadamente, Europa Ocidental e Estados Unidos da América) como o verdadeiro produtor do conhecimento e detentor da mais elevada intelectualidade, como também cria o dogma de que suas ideias são o ápice do desenvolvimento cognitivo, racional e intelectual do homem. Outros pólos de pensamento são, na hipótese mais otimista, reações marginalistas ao centralismo ocidental.

 

Sem cair em anacronismos e nivelamentos superficiais, podemos fazer um paralelismo entre a Babilônia (بابل; Bābil) e Londres: dois centros de aglutinação de pensadores, intelectuais, sábios — duas urbes centralizadoras do conhecimento. Nos dois casos, a guerra é uma conquista não apenas material, mas, acima de tudo, de tomada de espólio cerebral: por um lado, os sábios levados cativos à Babilônia e, por outro, os pesquisadores atuais que se vêem forçados a tomar o caminho de Oxford, Harvard e do Silicon Valley caso desejem alguma sustentação e viabilidade às próprias pesquisas.

 

Assim, a esquematização de dominação intelectual exige não somente a tomada das ideias produzidas no "Mundo Desenvolvido" como fundamentalmente superiores a todas as outras, mas a extração de grandes mentes para esses pólos (a fuga de cérebros). A inviabilidade material da produção intelectual e de pesquisas nas nações marginalizadas (esquema que segue muito da ideia de Sistema Mundo, tendo Immanuel Wallerstein como um de seus principais desenvolvedores) faz com que as elites intelectuais dos países marginalizados tenham não apenas de se locomover para os "verdadeiros centros de pesquisa", como também adotar a semântica e a lógica desses países dominantes.

 

Esta usurpação pela sabotagem econômica — o determinismo de que os países marginalistas não podem aspirar a outra coisa senão o papel de fornecedores de matéria-prima e mão-de-obra barata — funciona tanto como efeito colateral da imposição intelectual imperialista quanto como sua sustentação.

 

Esta centralização intelectual significa a desfiguração de povos e culturas e o impedimento de que o "mundo subdesenvolvido/em desenvolvimento" atinja níveis mais elevados ou que seja ao menos capaz de concretizar uma autonomia de produção intelectiva.

 

Se um povo é incapaz de produzir suas próprias ideias e sofre ingerências externas por meio de uma pressão cada vez maior para ceder a todo um conjunto de vocabulários, expressões e pensamentos que lhe são estranhos, então esse povo é anulado em seu âmago. Suas expressões só são aceitas diante do cosmoliberalismo à medida em que e enquanto são capazes de mostrar conformidade com as ideias dominantes. Ou seja, as "alternativas" são permitidas desde que não se mostrem um confronto ou uma ameaça real contra esses pólos de saber.

 

Neste chave, a estrutura econômica é uma e universal: mercados abertos e livre fluxo de capitais; o sistema político é também apenas um: "democracia" (no conceito mais vago possível). O indivíduo deve ser a medida de todas as coisas (como observou Dugin) e as identidades coletivas devem sistematicamente ceder espaço ao individualismo. A técnica deve estar acima da alma humana e governá-la. Essas estruturas, todas elas, sem exceção, agregadas a outros conceitos como "modernidade" e "progresso" são criações de natureza ocidentais, impostas ao restante do globo.

 

Essa dominação se expressa também por meio da linguagem. Tome-se como exemplo a miríade de movimentos de Esquerda (ou à Esquerda) atuantes no "mundo subdesenvolvido/em desenvolvimento" e é fácil perceber como talvez o maior traço dessa submissão intelectual se mostra explicitamente: o vocabulário. No Brasil, o vocabulário e a semântica dos movimentos mais à Esquerda, que seriam, teoricamente mais hostis a esse imperialismo, precisamente, é basicamente uma tradução das terminologias criadas na Europa Ocidental ou nos Estados Unidos ("Slut Walk" — "Marcha das Vadias"; "My body my rules" — "Meu corpo, minhas Regras"; "Mansplaining" - "Homiexplicação" — e outros nem sequer são traduzidos, como girl power, gaslighting e bropriating — apenas alguns exemplos de termos que não são africanos, latinoamericanos, asiáticos, indígenas, mas, sim, essencialmente ocidentais, europeus, estadunidenses).

 

As teorias de gênero e teorias queer são outros breves exemplos de toda uma estrutura semântica e análise de elementos como sexualidade, gênero e papéis sociais, produzida exclusivamente por pensadores ocidentais (EUA + Europa Ocidental). As pessoas não-ocidentais que abordam esses assuntos ou que concordam com eles o fazem em conformização com uma estrutura que é na base alheia à sua própria identidade coletiva. A abordagem intelectual do outro só tem valor se ela pode se adequar ao mesmo, ao dominante.

 

De fato, todos os criadores e todas as origens dessas ideias estão localizados em centros como Londres, Nova Iorque, Chicago, Paris, etc. E,se a origem de alguns desses intelectuais e ideias não está localizada nesses espaços, é só por meio deles e de seus aparatos que são capazes de atingir um nível expansivo e relevante.

 

Um exemplo também prático: a intelectual e ativista africana Obianujo Ekeocha denuncia as agendas pró-aborto na África como uma interferência imperialista que não leva em conta absolutamente nenhuma das especificidades culturais dos povos africanos. A questão essencial não reside sequer no fato de Obianujo ser contra ou a favor do aborto, de os povos africanos desejarem ou não a prática em si, mas o fato de que, tanto Obianujo (militante pró-vida) quando qualquer pensadora africana com uma ideia contrária precisarão, igualmente, se reportar aos "verdadeiros" produtores e disseminadores do conhecimento. Em solo africano, suas ideias autóctones e voltadas às realidades de seus povos terão pouca abertura e pouco valor em seus próprios núcleos de produção acadêmica, porque estes estão voltados para os dominadores do intelecto, o Ocidente.

 

Assim, vê-se que a colonialidade do saber não só concentra os principais pesquisadores, estudiosos e intelectuais no eixo EUA-Europa Ocidental, como reúne os principais instrumentos, aquilo que há de mais desenvolvido no campo técnico — e, para acessar esses dispositivos, é preciso antes se conformar à própria estrutura lógica que os rege e os mantém, ou seja, a adoção do logos ocidental, da estrutura cognitiva do Ocidente.

 

Essa colonialidade não só polariza a produção de conhecimento no eixo do "Mundo Desenvolvido", como também se expressa por meio da unificação das análises sobre os outros. Isto é, não se trata apenas de extrair e reunir as principais mentes do mundo inteiro, mas de controlar os pólos de análises e estudos de absolutamente todas as outras culturas do mundo. Definitivamente, há mais centros acadêmicos dedicados a estudar o Brasil em Londres do que no próprio Brasil; há mais centros sobre a África nos Estados Unidos do que talvez no próprio continente africano. Os povos analisados por esse maquinário intelectual não são os principais avaliadores de si mesmos, papel destinado a estruturas externas a eles — daí o roubo de patentes e o tráfico biológico, dentre outros efeitos colaterais desse processo.

 

Portanto, a dominação intelectual destitui os povos dos próprios conhecimentos milenares dos quais são portadores, transferindo essa carga de conhecimentos para territórios externos. Em algum laboratório europeu estão concentradas informações armazenadas durante milênios na região da Suméria. Em algum banco de dados nos Estados Unidos estão armazenados milhões e milhões de digitalizações de manuscritos compilados durante inúmeras gerações de pensadores. Alguma força militar estadunidense está, nesse momento, monitorando melhor os territórios e suas capacidades do que os próprios governos que, supostamente, detêm a soberania desses países. Isso é colonialidade do saber, isso é imperialismo intelectual.

 

Na ficção, é possível fazer um paralelismo com a figura de  Brainiac, um vilão — uma criatura humanoide, um androide — que captura mundos inteiros e os condensa em pequenos recipientes, acessando todos os conhecimentos das civilizações a seu bel prazer. A atividade de capturar, condensar e manipular o conhecimento é sobretudo moderna e Ocidental. Não se trata apenas da concentração da produção intelectual em determinadas localizações geográficas, e, sim, do quase monopólio da lida com essa produção.

 

O prof. Dr. André Martin diz acertadamente que a ideologia é o principal instrumento para o poder geopolítico, porque é a partir da ideologia (entenda-se aqui também o conjunto de ideias, a intelectualidade, uma Intelligentsia [интеллигенция], uma elite pensante) que se formata toda uma estrutura de poder. Se um povo é incapaz de deter, possuir, criar ou manter sua própria ideologia, em outras palavras, seu próprio organismo intelectual, então este povo será incapaz de se provar dono de si mesmo, sendo fadado ao marginalismo econômico e todos os outros marginalismos possíveis.

 

Sem uma ideia, não há soberania de fato. Sem a capacidade de manter uma autonomia de consciência, de ideias e de material psicológico, um povo deixa de ser povo e passa a ser o corpo remotamente conduzido por um terceiro, por agentes outros. Ausente o pensamento autóctone, a imposição de uma estrutura cognitiva dominante torna-se uma realidade inescapável. Qualquer aspiração de independência tem como condição sine qua non a liberdade de pensamento e a insubordinação intelectual — e é esta a Revolução que o modelo unipolar jamais permitirá.

 

A multipolaridade exige uma multiplicidade de pólos de conhecimento: que a Europa pense a Europa, a África pense a África, os EUA pensem os EUA, o Brasil pense o Brasil, e assim por diante. O oposto disto será a manutenção da atividade do pensar como algo particularmente do Norte, uma atividade com a qual os países do Sul não devem "se preocupar" — "durma, pois há alguém para pensar por você".

 

É neste ponto que a ideia de Colonialidade do Saber é vital à Quarta Teoria Política e ao conceito de Multipolaridade e à própria ideia de Meridionalismo proposta pelo prof. Martin: ou criamos uma ideia nossa, ou seremos sempre os outros.

 

 

 

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