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Por que o Brasil não se firma como uma potência continental?

 

É bem verdade que o Brasil é, de fato, liderança continental em vários quesitos. Mas a falta de um reconhecimento formal dessa liderança e da prospecção de dimensões melhores para o país e de uma política regional mais convincente são coisas que colocam em dúvida a capacidade organizacional brasileira para o continente. O Brasil precisa firmar uma ideologia e uma doutrina geopolítica que seja suficiente e atraente não apenas para si mesmo, mas também para os pares da Latinoamérica.

Há um imenso potencial regional para o Brasil na porção geográfica conhecida como América do Sul. E podemos, tranquilamente, expandir esse contorno geográfico para toda a Latinoamérica. Mas a questão do dia é: esse potencial é aproveitado? 

 

De acordo com o professor dr. André Martin, os potenciais do Brasil são maiores do que os meios dos quais dispomos para atingir essas potencialidades. E a ausência de uma Ideia ou Doutrina geopolítica para conduzir as ações de médio e longo prazos em se tratando de política externa é um elemento que apenas agrava esse quadro.

 

O Brasil é o grande gigante, o país-continente e o Estado-nações da Latinoamérica. Possui vastidão territorial, várias colheitas anuais, grandes reservas minerais e a porção mais considerável de toda a água potável do planeta - isso sem falar na fauna e na flora colossais. Mas, sem uma política clara e sem conceituações definidas, nosso país peca em firmar sua capacidade de liderança e de assumir seu papel enquanto potência continental.

 

O Brasil é um componente-chave para o Eixo Sul, para os Meridianos, segundo as análises do prof. André. Mas esse elemento chave tem estado em estado quase que inteiramente estático. O Brasil tem flutuado, levado à deriva de acontecimentos e questões de contingências. Sua política tem sido pautada na aleatoriedade, e não na consistência. 

 

Para se firmar como uma potência geopolítica, um Estado precisa de uma doutrina geopolítica. Isso parece bastante óbvio, mas é um imperativo que tem sido sumariamente ignorado pelos organismos de Poder no Brasil. Essa desconsideração não ocorre pela falta de oportunidades, já que a própria teoria do Meridionalismo possui bases bastante consistentes para fornecer ao Brasil diretrizes de política externa, especialmente em relação aos vizinhos latinos. Ela ocorre porque as elites atuais, completamente desgastadas, não possuem um projeto real sequer para as questões domésticas (nas quais se mostram fartamente incompetentes), muito menos para uma esfera mais abrangente, como a das relações internacionais e a geopolítica.

 

Os Estados Unidos da América conseguiram se firmar como uma potência global porque, primeiro, concretizaram uma dominação regional/continental. Eles abocanharam o México e, então, avançaram pelo Caribe e pela América Central. O Canal do Panamá foi uma boa amostra disso. O Brasil, em contraste, cedeu facilmente suas expansões territoriais e abriu mão de consolidar seus interesses reais. Enquanto que os EUA, pelo Destino Manifesto, enxergavam toda a América como sua área natural de influência, nós não enxergamos a Latinoamérica como tal. 

 

E, sem essa admissão e sem uma doutrina concreta para guiar as ações de política brasileira, é inviável consolidar o Brasil como uma potência dominante no continente, embora isso já aconteça de fato em algumas áreas. O Brasil ainda não é capaz de admitir aquilo que já acontece independentemente de um planejamento estratégico (como nossa proeminência econômica, territorial e populacional - isso sem falar em nossos recursos), e por isso mesmo não se posiciona em nome de interesses futuros que dependem justamente do reconhecimento dos méritos já existentes.

 

O projeto de Mundo Multipolar exige a afirmativa do Brasil como potência continental - o que serviria para uma projeção ainda mais audaciosa: a da ação como um agente com poder de nível global. Sem a afirmação da potencialidade brasileira, outros agentes geopolíticos, outros Estados no eixo-Sul acabariam perdendo um aporte interessante - e a recíproca é verdadeira, já que nós também deixamos de explorar situações interessantes para nossa própria realidade.

 

Ignorar a Latinoamérica e desconsiderar a região como uma área de influência natural para o Brasil é ignorar qualquer oportunidade de transformar o país numa nação verdadeiramente soberana. É fato histórico que as soberanias nacionais não raramente se escoram em uniões regionais e/ou continentais. Subestimar nossos vizinhos significa subestimar a própria capacidade nacional - e a diplomacia brasileira tem feito exatamente isso, não se limitando apenas ao nosso continente, mas tratando os próprios trabalhos diplomáticos na África como um "encargo desnecessário".

Se nós não aproveitamos as oportunidades, definitivamente outros vão aproveitá-las em nosso lugar. E isso certamente será feito pelos Estados Unidos ao "Norte" e pela China, a "Leste". E o Brasil, o que será? Um agente inerte no Centro?

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