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Brasil, Ainda Te Espero

          A Política, sempre um tema delicado, no Brasil ganha ares de complicação quase insolúvel porque os assuntos complexos, - aqueles com muitas camadas entretecidas -, não encontram, em nossa sociedade, foro de discussão. Habituados como estamos a este estado de ausência, passamos às formas simplórias de interação, com a emissão de opiniões rápidas e com pouco embasamento, mas muito enfáticas, ou urgentes, até, quando isso se dá por meio das redes sociais, quando estranhamente o que está em jogo é "ganhar ou perder" o debate das idéias, e não construir entendimento.

          O significado da palavra Política deveria, no entanto, estar presente nas nossas cabeças. A Política, assim, com P maiúsculo, engloba uma série de coisas:

  • a Sociabilidade (a maneira como as pessoas interagem umas com as outras),

  • o Processo Eleitoral (o debate eleitoral e as eleições),

  • a Cidadania (aliás, com muito mais deveres do que direitos, pois visa ao bem-estar de todos),

  • as Instituições (que discutem, cuidam e instrumentalizam valores e idéias),

  • os Partidos Políticos (representantes de determinados conjunto de valores),

  • as Políticas Públicas (táticas para resolver problemas e questões surgidos a partir de observação e análise nas diversas esferas)

  • a Constituição (carta de princípios básicos no regimento do país)

  • e os 3 Poderes (as áreas próprias para executar, legislar e julgar as ações e caminhos eleitos pelo país).

          Todos os ítens acima, e ainda outros, devem estar desenhados dentro de um Projeto de Estado que é, naturalmente, mais do que a soma das suas partes constituintes. E é ele quem deve ser protegido por todos os processos políticos do país, inclusive o eleitoral - o qual, no Brasil, é basicamente a única forma como as pessoas entendem Política. Entretanto, muito mais condizente com a condição subalterna da política eleitoral seria exigir que qualquer candidato que surja apresente o seu projeto de Estado, nos permitindo então ver se aparecem no horizonte propostas mais adequadas que mereçam uma chance. Um candidato seguindo esta lógica deverá ter presença firme no seu partido, no qual, aliás, tenderá a se manter. Os partidos inclusive não serão tantos como temos hoje, pois esta quantidade denota muito mais um esfacelamento dos valores do que o seu reforço. Eles terão um sentido palpável, reconhecível, e não serão mecanismos de costuras de favores entre os grupos (favores esses muitas vezes invisíveis aos nossos olhos). Nós, os cidadãos, teremos, assim, um poder de escolha real, que justificaria para além do campo teórico a rotatividade que a Democracia prega como essencial.

          Mas, no Brasil...

          As eleições são um reflexo cristalino da pobreza das nossas discussões. Os candidatos dos diversos partidos - especialmente ao cargo de presidente -, espelhando os eleitores brasileiros, não se referem quase nunca à Política; antes, preenchem suas falas com exemplos de políticas públicas que pretenderiam adotar (talvez nem isso), caso fossem eleitos. Em outras palavras: como eu dizia acima, a Política também não é a política pública, ou seja, a forma de executar uma idéia, assim como a estratégia não é a tática, que é o conjunto de ações adotado para que a estratégia tenha lugar. Por isso mesmo, as políticas públicas podem variar - e possivelmente variarão -, o que não representa problema, desde que haja de antemão uma Política clara a ser seguida.

          No nosso caso atual, temos uma série de candidatos numa eleição muitíssimo debatida, acalorada - que inclusive acompanhou bem a questão da "divisão anímico-territorial" dos brasileiros iniciada em 2016 (na verdade, ainda antes, como se precisássemos de mais divisões entre nós). Mas, voltando, não é possível delinear, pelas falas dos candidatos, qual Política eles representam. Não que isso esteja invisível. Acontece algo mais complexo: é preciso entender de Política para que se possa perceber o real efeito das políticas públicas que eles apresentam nos debates, nas propagandas eleitorais e nos programas de suas candidaturas veiculadas pela internet via suas páginas pessoais, dentre outros meios. Em nenhum desses veículos se apresenta com nitidez um projeto de Estado que seria, definitivamente, a única coisa de fato fundamental a nos guiar na eleição já não de um ou outro candidato, mas de um ou outro rumo para o Brasil.

          Trazendo um exemplo bem simples e tangível: algum candidato considera que o Brasil deveria ser um país em busca do ressarcimento histórico aos povos massacrados pelas escolhas de sociabilidade desastrosas que aqui foram feitas desde a colônia e perpetuadas até os nossos dias. Assim, diante desta diretriz Política (a do ressarcimento histórico), negros e índios, para ficar em exemplos mínimos, estariam na mira de políticas públicas para lidar com o caso. É praticamente indiferente quais seriam elas, pois existem aos magotes e é uma questão de escolha do grupo de peritos do candidato; no nosso exemplo, poderiam ser programas especiais para a infância, cotas na universidade e no trabalho, renda básica de cidadania, regime exclusivo de trabalho para as mães dessas minorias (com uma jornada reduzida para que pudessem cuidar mais de perto dos seus filhos), semi-tutela das crianças pelo Estado, bairros minoritários com orçamento próprio para cuidados, etc. Se este fosse um objeto concreto do nosso projeto de Estado, seria possível experimentar uma política pública ou outra, e ver qual funcionaria melhor para nós. O importante é que existisse de modo concreto o projeto de ressarcimento histórico e homogeneização dos acessos e a garantia de que, sendo crucial para a constituição do Projeto Brasil, não seria desmontado pelo próximo governante (o que estaria garantido pelas Instituições, pela Constituição e zelado pelos 3 Poderes).

          A Política não está nem nos absurdos nem nas maravilhas que os candidatos, de há muito, já, bradam aos quatro ventos. Ela está num projeto que se delineou no Brasil-Colônia e que foi retomado grandemente no Brasil-Neocolonial. Sem perceber este movimento histórico, não é possível sair da espessa nuvem que cobre o país. Mal é possível enxergar como que o invisível tomou as rédeas da Sociabilidade entre nós e conseguiu que nos permitíssemos dividir entre candidato X e candidato Y, como se X ou Y pudessem trazer as soluções para um país tão complicado e tão absolutamente mal-discutido. Um país em que os problemas aparentes, embora urgentes, não são o coração real daquilo que nos assola, mas apenas o efeito de séculos de decisões ruins, de um mau projeto de Estado, com discussões pobres em argumentos e um teatro mal-dirigido para um público infantilizado, imediatista e infeliz.

          Alguma sugestão de ação concreta? Sim, tenho uma sugestão na área do comportamento pessoal-coletivo. O processo de caminhada histórica exige que nos apossemos dos conhecimentos necessários, ainda que à revelia de alguns. Assim sendo:

  • Esquerda, direita, conversem. Há, ainda, alguns sábios em ambos os espaços. Saiam das falas imediatistas e midiáticas dos candidatos e tentem entender os projetos de país de cada um: "estas idéias no poder por 4 anos significarão um Brasil assim ou assado".

  • Juventude, tente ultrapassar o impulso sempre exagerado e entenda que não há almoço grátis. Procure compreender, não apenas reagir. Entender leva tempo. Convença seus colegas a estudar com quem sabe mais. Guarde os entendimentos para si um pouco. Vote com moderação.

  • Sêniores, ajudem. Tragam suas lembranças de Brasil, de Brasis. Exponham o que sabem, o que intuem. Acima de tudo, mostrem aos jovens que não podemos reagir como uns poucos querem, quebrando pontes em vez de erguendo, cortando relações em vez de enraizando. Digam não a esta manipulação dos espaços mais humanos que levam também tanto tempo para construir, mas tão pouco para destroçar.

          Há uma ordem no mundo e ela é simples: os mais jovens ampliam, os mais velhos aprofundam. Que cada um pegue seus instrumentos de trabalho.

 

 

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