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Brasil: O Abismo de Sociabilidade se Tornaria Mais Profundo Tanto com Bolsonaro Quanto com Haddad

 

Entrevista com a filósofa brasileira e diretora do Centro de Estudos da Multipolaridade, Flavia Virginia.

 

- Como você descreve a atual situação política no Brasil? As próximas eleições podem mudar seriamente o estado de coisas? Isso é uma batalha ideológica ou algo mais? Qual é o vencedor mais provável?

F.V.: Nós estamos em meio a uma terrível crise. Ela tem muito a ver com a crise mundial que, atualmente, é uma mudança na sociabilidade humana, onde aspectos cruciais como espiritualidade e religião, moral e ética, política e economia, família e, finalmente, epistêmicas estão sendo rebaixados em benefício de um comportamento globalmente controlado. Os principais fatores que estão levando populações inteiras a ceder a esse controle são o medo e a desconfiança. E isso está sendo efetivado por coisas como o surgimento de ondas de corrupção e violência fabricadas, desemprego, disjunção familiar, religiões de marketing, etc.

 

No Brasil, a mesma coisa está acontecendo e a arena cardinal para isso é a Política. Com o golpe de 2016, aprendemos que regredimos dez casas no jogo político – como usualmente acontece em qualquer golpe – mas, na época, não estava tão claro o quanto poderíamos ficar chocados, socialmente falando. Famílias, amigos e instituições foram despedaçados por conta de uma diferença de opinião sobre qual candidato deve ser nosso próximo presidente. O problema real, entretanto, é muito mais profundo. A Política foi abduzida das nossas vidas há muito tempo atrás (mais uma vez, com outro golpe, aquele de 1964, quando a simples reunião de grupos ou a posse de alguns livros faria com que você fosse preso, torturado e morto). Entretanto, tudo o que nos restou em termos de política foi votar a cada dois anos. Isso, é claro, apesar de fazer parte do jogo democrático, não é sinônimo de Democracia. Mas os brasileiros foram treinados a enxergar isso como o suficiente.

 

Temos de ter em mente, entretanto, quem é o brasileiro típico, o narod: alguém que espera que um presidente seja apto a fortalecer:

 

- O Estado, para proteger os submissos e garantir empregos, segurança e bem-estar

- A família

- E a religião

E presume-se que tal presidente também deva barrar os tópicos da agenda cosmoliberal, defendidos forçosamente pelos liberais de Esquerda:

- O aborto

- Agendas homossexuais e transexuais,

- Feminismo

- Violência urbana (apoiada, dentre outras coisas, por direitos humanos aplicados a criminosos em detrimento de cidadãos comuns),

- E a corrupção

 

E o candidato que encarnar essas tarefas imediatas tenderá a ser o preferido nas pesquisas, independentemente de como ele cumpriria essas tarefas ou qualquer outra questão política exterior ao campo acima mencionado, incluindo Geopolítica e Relações Internacionais.

 

Então, somos um país sem Política – apenas um amontoado de slogans e algumas políticas públicas, e é isso que vem sendo discutido pela maioria dos cidadãos atualmente, ao ponto da fratura social.

Independentemente disso, os candidatos representam vertentes políticas reais, apesar da ignorância das pessoas em relação a esse fato. Infelizmente, todos eles recaem no eixo cosmoliberal. A diferença entre os vários candidatos é o grau de cosmoliberalismo que representado por cada um deles, o que vai impactar diretamente a soberania de nosso país já não-soberano (no sentido geopolítico direto do termo). 

 

E no Brasil, como de costume, qualquer coisa pode acontecer, então ainda não sabemos quem realmente vai ganhar. É mais provável que teremos um segundo turno e o debate agora está concentrado em quem é que vai enfrentar Jair Bolsonaro – Fernando Haddad ou Ciro Gomes.

 

- E Jair Bolsonaro? De fora, ele é visto como um populista que surfa numa onda semelhante àquela que levou Donald Trump à Casa Branca e que resultou no ressurgimento dos populismos de Direita e Esquerda na Europa. Essa análise é verdadeira? Por que ele é apoiado e por quem?

F.V.: Jair Bolsonaro encarna a figura do herói que salvará o Brasil de sua terrível perda de valores morais e conservadores, bem como de seu forte comprometimento com as agendas liberais-esquerdistas no decorrer dos últimos anos.

 

O comprometimento foi materializado porque o partido do ex-presidente Lula, o PT, que esteve no poder por doze anos, não foi capaz de criar um campo político real, focando, ao invés disso, quase que exclusivamente nas políticas públicas e nos movimentos sociais de base (houve também boas manobras no campo das Relações Internacionais). Assim, apesar de ser verdade que a mobilização social foi claramente lançada no estrato mais baixo, também é verdade que, ideologicamente o PT não agiu tão fortemente como instrumento da Política quanto deveria, dando espaço a todos os tipos de liberalismos de Esquerda que vão diretamente contra o Brasil Profundo.

 

Apesar disso, Jair Bolsonaro também representa o grupo que chamamos de entreguismo, ou seja, o ato de entregar o país nas mãos das elites cosmoliberais mundiais, o que é, evidentemente, uma traição contra qualquer povo. Com o golpe, o aprimoramento social foi derrubado e acabamos nos tornando presas fáceis para os planos dos golpistas para uma tomada de poder a todo custo. A corrupção e a violência urbana atingiram níveis insuportáveis no decorrer dos últimos anos – num reforço de narrativas como as de Bolsonaro – e, assim, tudo o que muitas pessoas querem agora é uma pessoa prometendo que vai cuidar das coisas com as próprias mãos, arrumar tudo o que está errado e fazer com que elas aconteçam como no imaginário do povo. Ele é um fantoche.

 

Daí, o que é inicialmente surpreendente, mas não tanto assim, é o fato de ele ser apoiado por uma gama de eleitores bastante extensa porque eles não podem fazer uma leitura política da situação – só uma leitura social, como explicado.

 

- As próximas eleições podem mudar o curso geopolítico do país?

F.V.: Podemos esperar, basicamente, dois programas, dependendo de quem for o vencedor: ou a submissão ao eixo atlantista EUA-OTAN (as políticas de Jair Bolsonaro - e também as de Haddad, apesar de não tão fortemente) ou uma possível reaproximação da linha multipolar da Geopolítica como, por exemplo, por meio da retomada dos BRICS e talvez algumas relações mais saudáveis com a Latinoamérica (a política de Ciro, bem como, talvez, a de Haddad). Nessa última opção, contudo, enfrentaria sérias dificuldades e ameaças devido ao fato de que é extremamente importante para o domínio atlantista da América do Sul manter o Brasil sob guarda e restrito em seu poder, soberania e influência regional.

 

- Essas eleições podem tornar a sociedade mais unificada ou mais fragmentada?

F.V.: No caso presente, essas duas possibilidades estão em jogo. Independente de o vencedor ser Bolsonaro ou Haddad – os principais personagens dessa polarização sem precedentes -, o abismo de sociabilidade se tornaria ainda mais profundo. Ciro Gomes, contudo, poderia consertar as coisas e poderíamos até mesmo aspirar agarrar novamente a Política com nossas mãos dentro, digamos, de uma ou duas gerações.

 

Mas, você sabe, no Brasil nós nunca temos certeza, muito menos nesses dias muito, muito obscuros.

 

Que Deus esteja conosco!

 

Tradução: Jean Augusto Carvalho

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