Textos

O Trânsito Consciente da Política

1. O Resultado Político como uma Manifestação da Interpretação do Consciente

          Para quem é jovem, mas nem tão jovem assim, o nosso último processo eleitoral foi um tanto espantoso. Nunca passamos, de 1989 até hoje, por um processo tão polarizado e violento. Inúmeros fatores adicionais podem explicar tanto a polarização como a intensidade: redes sociais, aplicativos de comunicação, a vida on-line como um emprego integral de quase todo indivíduo. Como em todo processo de polarização, feridas foram abertas e é preciso acionar um estado de alerta, mas isto não impede uma análise mais fria do evento em seu aspecto mais antropológico. Quando etnógrafos começaram a questionar a ideia freudiana da sociedade como um traumatismo edípico, através de estudos da etnologia que comprovaram a existência de sociedades orgânicas que fundamentam todos seus mitos, costumes e símbolos sem qualquer presença de elementos edípicos[1].  Portanto, a questão de um inconsciente único, em todas as sociedades, é uma hipótese já descartada. Há muito mais em jogo, que também está além das insatisfações e medos pontuais.

          Desta forma, buscarei analisar o resultado atual, com a vitória de uma agenda contraditória, confusa e desordenada, mas encarada como “redentora” ou “oposição a um estado de coisas que não dá mais” pela maioria que a escolheu como um fenômeno complexo da massa, no qual não há qualquer escolha individual, mas tão somente uma interpretação coletiva temporal e local de algo que opera no inconsciente e alguns, com um sentido mais aguçado para entender como o consciente está interpretando no momento o que se passa no inconsciente, conseguem obter um discurso hipnotizante das massas.

 

2. O Primeiro Passo: Medo x Esperança

          O medo não é apenas um dos motivos da coerção social, mas também uma das ferramentas mais exploradas pela propaganda política. O medo do desemprego, o medo da violência, o medo da mudança ou da continuidade. Certamente, tanto a vida individual como social só se desenvolvem através do medo e é pelo individual que a coerção social torna-se possível. Portanto, não é espantoso ver como esta ferramenta foi utilizada pelos dois lados, através de uma polarização ideológica que não existe em nosso tecido social: o medo do comunismo contra o medo do fascismo. Nas eleições de 1989, Lula e Brizola causavam temor e tremor com a ameaça das reformas agrária e urbana, praticamente colocando a faixa presidencial em Fernando Collor, que se apresentava como um “caçador de marajás”, a “esperança” em uma nova figura venceu o medo; em 1994, Fernando Henrique Cardoso, através do Plano Real, também saiu vencedor diante do medo da estabilidade fornecida pelo plano ser destruída pela oposição e o mesmo tema praticamente decidiu a eleição. Em 2002, ocorreu uma reviravolta: a insatisfação popular com o governo FHC, ocasionada por fatores como desemprego, aumento da miséria e do “apagão energético”, Lula conseguiu sua vez com a frase que entrou para a história: “a esperança venceu o medo”.

          De fato, o que marca a vitória no jogo eleitoral é este aspecto de interpretação momentânea e local do inconsciente: afinal, quem representa a vitória da esperança contra o medo? No Brasil atual, depois do escândalo midiático que derrubou o governo Dilma, tanto através do crescimento de influenciadores da Direita que impuseram todos os tipos de medo inexistentes na população, como “conspirações comunistas internacionais” e até mesmo a irreal idealização do PT como o Cthulhu da corrupção, foi criado um verdadeiro pavor da chamada “política tradicional”. A resposta cruel começou a surgir na campanha: partidos tradicionais como PSDB e MDB não decolaram, o PT só conseguiu uma sobrevida para ir até o fim por conta de sua militância já consolidada. Mas é claro que a tal da “corrupção”, a principal justificativa pela mudança atual não passa de uma hipnose, liderada por ideólogos que souberam aproveitar muito bem a questão do medo. Sem esta ação, o impacto das denúncias e escândalos seriam os mesmos daqueles que não impediram a reeleição de FHC em 1998: o caso da Pasta Rosa, em 1996, a Emenda da Reeleição, com provas de grampos telefônicos e tantos outros escândalos sumariamente ignorados pela mídia e, consequentemente, pela população. Isto não quer dizer, entretanto, que há uma conspiração exclusivamente midiática. Há vários círculos de influência em torno da mídia e que, normalmente, são econômicos.

          Mas o processo de 2018 fez surgir algo novo: a influência poderosa de figuras que, sem a internet, estariam repetindo suas loucuras no eterno ocaso das rodas de falatório. Através de mentiras bem construídas e com uma linguagem bem apelativa, tais influências conseguiram acionar muito bem o gatilho do medo geral. O outro lado da moeda, mais pragmático e compreensivelmente incapaz de compreender a hipnose que ocorria ali, sob o nariz de todos, não soube reagir devidamente: primeiro, tentou combater a ideia de medo com outro medo. “Medo do fascismo”, “medo do autoritarismo” e outras ideias que não conseguiram alcançar a interpretação do consciente. O estrago já estava feito – o medo do estado atual de coisas, medo de “virar uma Venezuela”. A corda já fora puxada com muita força. Talvez, a única reação possível seria a da implantação de uma esperança. Mas qual? Certamente, foi criado um processo irreversível que não foi percebido nem pelas pessoas mais experientes e racionais, pois a coisa era muito tosca para parecer real. Eis algo que podemos aprender com a mitologia: muitas vezes, quem vence por algum momento é a completa dissimulação. As três grandes religiões abraâmicas afirmam que a marca do fim dos tempos é o surgimento de um grande impostor, capaz de imitar os maiores prodígios divinos, é um sinal muito claro do nosso imaginário. É algo que agora, na era da informação correndo rápido e do estado de paranoia ser facilmente imposto, deve ser analisado com muito cuidado por aqueles que agem de forma consciente na política. É preciso analisar se o medo imposto por influenciadores ideológicos e pela mídia pode ser combatido com outro tipo de medo. Se ele já conseguiu sucesso, se já foi instaurado e espalhado, dificilmente será destruído no curto espaço da propaganda eleitoral. Necessitamos de uma ação preventiva, de uma leitura mais cuidadosa e antecipada do que está se criando na população.

 

3. A Falsa Redenção: o Elemento Chave

          Toda estrutura mitológica nos mostra que, diante do medo, a saída é uma figura redentora. A figura do redentor é muito poderosa e transcendente, está muito além do argumento racional. Em nosso processo atual, isto ficou muito claro. O medo foi imposto e a figura redentora foi apontada. O processo hipnótico foi concluído com sucesso. Ninguém observou como o projeto vencedor apresentou diversas contradições: nacionalista e, ao mesmo tempo, declarando servidão ao mercado internacional, o que começou com bravatas e ameaças foi, ao longo do processo eleitoral e suas oscilações pontuais, tornando-se mais moderado. De fato, felizmente temos certa estrutura social que, apesar dos pesares, é capaz de resistir aos delírios mais radicais do lado que saiu vencedor, mas a situação não deixa de ser preocupante. Precisaremos de uma mobilização para que novos gatilhos não sejam acionados, novos climas para radicalismos surjam e a normalidade seja ao menos preservada num nível minimamente aceitável. Particularmente, creio que este é o cenário mais provável para o futuro.

          O próprio redentor, ao perceber as limitações do próprio cargo e dos freios do sistema, deverá fazer esta imagem esvanecer, pela própria continuidade de seu governo. Afinal, Dom Sebastião nunca voltou e os índios foram enganados pelo mito de Maíra. A realidade é muito complexa para ser resolvida por uma mera figura do imaginário. Mas se esta interpretação do consciente não for desfeita, o resultado poderá ser trágico para o falso redentor e para os que aguardam sua redenção.

          É natural que, de tempos em tempos, a sociedade experimente tais transes coletivos. As mudanças sociais, tecnológicas e o surgimento de novas dificuldades alteram a interpretação feita pelo consciente. E como olhos que espreitam na floresta escura, sempre haverá quem, num ato de pura malandragem, esteja pronto para vender uma falsa espada mágica, o único objeto capaz de matar o inexistente monstro do pântano.

          Que este doloroso processo sirva como lição. Enfrentaremos cada vez mais novidades e a batalha pela influência nunca mais ficará restrita ao pragmatismo.

 

 

 

[1] G. Durand desenvolve a questão em “Les Structures anthropologiques de l'imaginaire”,  Dunod, Paris, 1960.

 

 

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