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Mourão Está Logo Ali

 

 

          No Brasil, assim como praticamente todas as coisas, a política é o campo do inexplicável, do ilógico. As coisas não funcionam como deveriam funcionar, ou como esperamos que elas funcionassem. Os processos não são exatamente formais, lógicos e sequenciais, mas, geralmente, inesperados, imprevisíveis, heterodoxos. Somos o país do mas, do porém, dos “imprevistos” não tão imprevisíveis assim – e, claro dos “acidentes” programados.

         Desde o processo eleitoral em 2018, quando o nome de Antônio Hamilton Martins Mourão, mais conhecido como general Mourão, foi confirmado para o cargo de vice-presidente na chapa de Bolsonaro, surgiram várias teorias de que o coadjuvante poderia se transformar no protagonista. Conjecturas sobre um golpe de Estado, um golpe militar ou mesmo uma “sucessão legal” apareceram rapidamente.

         Hoje, no segundo mês deste que é o primeiro ano de um governo que já nasce em colapso, isso é cada vez menos uma simples conjectura, uma simples “possibilidade” pertencente ao campo da imaginação, das “teorias conspiratórias”, e se torna cada vez mais um evento plenamente possível, viável e até mesmo lógico.

         Bolsonaro é incapaz de governar e isso não é só visível agora, mas sempre foi algo nítido. Ele incorporou uma indignação coletiva (com a típica demagogia, é claro), mas não incorpora a capacidade para governar de fato. Nem ele, nem Eduardo, nem Carlos e nem Flávio (este, o elemento mais enfraquecido dos três e tão desgastado quanto o pai) possuem condições de governar.

O governo está moral, técnica, intelectual e operacionalmente incapacitado de agir. As questões mais simples são entravadas por brigas intestinas. Bolsonaro, além de definitivamente não entender as atribuições de uma presidência da República, está fisicamente impossibilitado de exercer o cargo. Sempre hospitalizado, ele enfrenta alternâncias frequentes com o poder sendo constantemente exercido pelo vice, por questões explicitamente práticas.

         Mourão não só tem a condição física para governar, como possui uma estrutura mais forte ao redor de si. Enquanto que Bolsonaro é amparado por figuras do olavismo, ou seja, direta ou indiretamente originadas por Olavo de Carvalho, movidas por uma profunda desconexão com o mundo real, Mourão tem ao lado de si quadros militares com capacidade real de operar no campo político.

         Enquanto Bolsonaro precisa continuamente se deparar com os problemas criados por ele mesmo e pelos filhos, além das figuras ao redor dele (como Damares, com seus títulos fictícios; Onyx, que confessou já ter recebido Caixa 2 e é uma das lideranças do nada honesto partido DEM; Ricardo Salles, ministro do meio ambiente condenado, ainda cabendo recurso, por crime ambiental, integrante do Partido Novo, uma sigla que só é nova no nome, mas já nasce velha; afora outras figuras “memoráveis”), não consegue se portar diante da imprensa (nem mesmo a imprensa chapa branca, aliada), Mourão mostra capacidade de lidar com a mídia, coerência e uma certa estabilidade que o suposto protagonista não possui.

         O “golpe” não precisa ser necessariamente um golpe. Com o desgaste progressivo do governo e da imagem de Bolsonaro, a substituição pode ser fruto de um Impeachment, ou de uma formalidade qualquer, daquelas que os homens e mulheres realmente poderosos podem arranjar em qualquer linha da Constituição. Essa troca pode ser fruto do estado de saúde instável de Bolsonaro, caso ele venha a falecer, o que daria ainda mais legitimidade ao processo.

         É bastante claro que não vejo isso como algo positivo. Mourão é melhor que Bolsonaro, mas é precisamente por isso que ele é mais perigoso: ele e as pessoas ao redor dele possuem mais capacidade para executar o desmantelamento do Brasil, o programa neoliberal que nem mesmo Guedes vem se mostrando capaz de executar (sendo o próprio “guru econômico” do governo um homem que, assim como a maior parte da equipe atual, se mostra incapaz de fazer operações básicas no governo, parecendo não entender suas próprias atribuições).

         O próprio Bolsonaro, mesmo se mostrando preocupado com essa possibilidade, poderia ver isso com bons olhos. Afinal, isso significaria diminuir muito seu próprio desgaste pessoal e político. Antes do poder, ele era uma figura icônica representando uma ruptura estrutural, principalmente contra a corrupção e o crime; agora, ele e seus apoiadores mais próximos se mostram totalmente desgastados justamente por associações, reais ou imaginárias, exatamente com esses grupos e problemas. O poder, antes uma obsessão para ele, agora é um fardo.

         Justamente por ser superior, Mourão é um aprofundamento da marginalização do Brasil no processo global. Bolsonaro foi apenas um Cavalo de Tróia construído para esse fim, mas o que importa não é o meio em si, mas sim as finalidades – como diria Maquiavel.

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